- Então, é assim que começa.
O sonho. Mais uma vez o sonho que perseguia Christopher por quase uma semana. Lá estava ele, preso a uma cadeira, incapaz de se mover por alguma razão obscura. Drogas talvez? Ele não sabia. Mas havia uma coisa nítida em seu sonho.
Ele tinha de fazer uma escolha.
- Ele acha que conhece a dor?
Seu ombro estava perfurado por algo afiado, porém desconhecido. A voz masculina vinha da sala de armazém escura, onde estava. A sua frente havia nove pessoas, amarradas, inclusive uma linda mulher de vestido rasgado. Ela estava bastante ferida e, assim como Chris, estava com o ombro perfurado. Mas agora ele podia ver que não era algo de metal, madeira ou outro material.
Apenas trevas ocupavam o lugar do ferimento.
- Escolha! Um deles vive, os outros oito morrem!
Buscando falar, a voz do Caçador não conseguia penetrar a escuridão. Antes que ele pudesse entender o que acontecia, tudo ficou escuro, e no fundo de sua mente, um som familiar estava se repetindo…
Cidade de Nova York, 13/01/2012, 11:35
- Acorda, dorminhoco!
Um flash de luz apareceu perante os olhos de Chris, atordoando-o por um segundo. Com sua visão acostumada com a claridade ele percebeu sua irmã Kate abrindo a casa inteira e colocando uma música alta no som que Chris recebeu de presente de Natal.
- Nossa. – falou Kate, com tom de nojo. – O que diabos você faz para ser tão porco?
- Trabalho. – disse Chris, com a boca seca e sentindo fortes dores. O dia anterior não tinha sido um dos melhores: a Vanguarda enviou Chris e o Viajante checarem um esquema de tráfico de armas na Flórida. E uns membros da santeria local não ficaram felizes. E eles eram paranormais.
- Você está dizendo que seu trabalho o ocupa tanto que não pode nem mais receber uma visita da sua irmã? – Kate se aproximou para dar um abraço em Chris, mas ao sentir seu cheiro horrível, ela fez uma careta e se afastou. – Bem… – sorriu para disfarçar. – É melhor você se arrumar!
Chris sentou na cama, massageou as têmporas tentando encontrar um ponto entre as inúmeras dores que não fosse tão forte, depois suspirou. – Por que você está aqui, Kate?
Kate fechou a cara, como se alguém tivesse falado um palavrão. – E uma irmã não pode visitar um irmão de vez em quando? Que tipo de família nós somos?
Chris sabia que Kate estava atrás de alguma coisa. Normalmente Jessica fazia visitas todo fim de mês quando voltada de Detroit. A transferência para lá estava enchendo sua vida e principalmente depois que seu escritório começou a trabalhar abertamente com Nightstalker. Mas quanto a Kate, o assunto era diferente: após tornar-se uma modelo internacional, ela começou a visitar menos e menos seus irmãos e sempre que aparecia era para pedir algo.
Chris tentou ao máximo esboçar um sorriso. – Tudo bem, eu admito que estou um pouco surpreso, mas você não me visita, bem, desde que foi sequestrada ano passado! – disse Chris, em tom sarcástico. – E mesmo assim, você “aproveitou” a visita para me perguntar sobre algumas firmas de segurança para contratar guarda-costas!
Kate sentou na mesa de escrivaninha de Chris, que por um momento temeu que fosse ceder por tão acabada que estava. – Olha, eu sei que eu não sou a irmã mais presente. – e Chris notou que ela estava falando sério. – Nem mesmo sou a melhor irmã do mundo, isso é cargo da Jess. – ela falou sem olhar diretamente nos olhos do irmão. – Mas eu me preocupo com você, sério. Não sei porque fica nesse empreguinho…
Neste momento, Kate escutou o chuveiro ligar e seu nível de raiva subiu ao máximo. Dentro da ducha, Chris ouvia tudo com seus poderes paranormais, mas ria por dentro da raiva que Kate tinha. Ela odiava ser ignorada.
Ao terminar o banho, Kate olhava com uma cara de quem mataria alguém se tivesse uma arma na mão e Chris, mais refrescado, saiu sorrindo para a irmã. – O que dizia mesmo?
- Irmãozinho… – ela puxou a orelha de Chris, forçando-o a sentar. – Não me ignore, eu estava me abrindo para você aqui e você saiu no momento… ah, esquece!
- Ai! – disse Chris, segurando a orelha perfurada por unhas de modelo. – Pelo menos você não perdeu suas unhas poderosas!
- A verdadeira razão de eu vir, querido irmão, – interrompeu Kate – é que eu quero recompensá-lo por sua bondade. Como a irmã rica da família…
- Nem tanto! – interrompeu Chris.
- …eu já presenteei meus sobrinhos e Jess corretamente! – ela chutou a perna de Chris, que esquivou facilmente. – Então faltou você! Sei que meu som não foi grande coisa, por isso queria passar aqui para lhe intimar.
- Intimar? – Chris não gostava para onde isso levava. – Por quê?
- Parabéns irmão! – falou Kate, tirando duas passagens da bolsa. – Nós vamos para a Europa!
Paris, 14/01/2012, 13:14
- Eu sinceramente não acredito que fez isso!
Pelo telefone, dava para escutar a frustração de Vanessa Ashe, patrocinadora, bilionária, inventora e cadeirante mais querida da Vanguarda, claramente irritada com a partida de Shadow Hunter dos Estados Unidos.
- Pois é! Mas eu não tive escolha! – disse Chris, tentando disfarçar sua incrível vontade de rir. – Minha irmã, de alguma forma, descobriu toda a minha agenda, então eu não tinha escapatória. Eu não podia chegar e dizer: ‘Maninha, tenho uns serviços para fazer na Vanguarda, se importa?’.
Vanessa bufou do outro lado da linha. – Olhe, eu vou dar um desconto porque você passou por muita coisa. Nós… – ela parou e Chris soube que ela se referia a morte de Brandon – passamos por muita coisa. Mas quando fizer isso, avise! A Equipe Zero está desfalcada e eu estou pedindo transferência para a Equipe Alfa.
- Soube que eles estão fazendo um trabalho incrível aqui na Europa.
- Pois é. – disse Vanessa. – Fazia anos que Prophet estava reunindo e treinando eles. Mas quando as coisas esquentaram ele sabia que só vocês podiam impedir o fim do mundo. – ela falou em tom mais alegre. – Portanto, não seja tão duro consigo mesmo! A Equipe Zero é fenomenal.
- Ah, isso tudo só porque somos americanos! – brincou Chris.
- Não. – Vanessa retrucou. – Porque vocês são heróis.
Ao desligar o telefone, Chris se sentiu mais tranquilo. “Heróis”, pensou, “é, nós somos heróis agora, podemos fazer a diferença”. Mas a lembrança dos sonhos logo apagaram a felicidade de sua mente. E quando sua irmã puxou seu braço com a força equiparada de Hércules, Chris escapou de seus devaneios.
- O que foi? – falou, alarmado.
- Acorda dorminhoco! – ela apontou. – Estamos aqui.
O Paris Fashion Week estava sendo montado em pleno Carrousel du Louvre, um shopping subterrâneo da cidade da luz. O nome vem do Louvre e da Place du Carrousel, uma praça próxima bastante famosa por suas bebidas. Infelizmente isso teria de esperar, já que Kate iria colocar o nome dos Collins nos holofotes ao desfilar como modelo.
- Nós não vamos ver suas amigas supermodelos agora, vamos?
Kate riu e deu uns tapinhas nas costas e ele baixou a cabeça, derrotado. – Estas festas são apenas para os convidados.
Depois disso, Chris notou que ela tinha dois convites na mão e abriu um sorriso.
- Pois é, mano! – ela piscou e entregou um deles para ele. – É bom ter seus contatos! Mas primeiro devemos mudar esse visual para algo mais… moderno!
Carrousel du Louvre, 15/01/2012, 20:03
Chris não sabia que abraçava ou estrangulava sua irmã. Tudo bem que ela o trouxe para um dos locais mais cheirosos e com gente bonita do mundo. Mas o terno que ela comprou, um azul escuro, estava tão apertado que ele podia sentir seu fôlego caindo aos poucos. “Demora um pouco pra acostumar”, ela disse.
Após alguns minutos rodando pelo local, Chris pegou um champanhe e engoliu. Era delicioso, mas o que o fez abrir a boca foi ela: Alexandra Norpov. Supermodelo internacional russa, ela era um exemplo de como as mulheres deveriam ser. Ao contrário da maioria das magricelas, Alexandra tinha alguns quilinhos a mais nos pontos certos, o que a tornava interessante, exótica até, para o meio. E esses traços a tornaram a modelo mais bem paga do mundo, quase rivalizando Gisele Bundchen.
Apesar de seus claros atrativos, quem mais chamou atenção de Chris não foi Alexandra. Uma bela mulher, de origem francesa e traços aristocráticos, apareceu e trouxe atenção a si dos repórteres e jornais. Era a mesma bela mulher que Chris tinha visto em seu sonho: tudo estava se tornando realidade! Preocupado, ele se aproximou rapidamente de sua irmã, que estava conversando com seu estilista, mas logo foi puxada de lado por Chris.
- O que foi? – disse Kate, se livrando do puxão.
- Quem é ela? – disse Chris. – Eu nunca vi aquela modelo antes.
Kate sorriu e depois fez aquele rosto de mulher informada versus homem desligado. – Aquela não é uma modelo, apesar de que poderia ter sido. Seu nome é Felícia DuMont. Lembrou de algo?
Felícia DuMont. A Casa DuMont era uma família poderosa na França que sobreviveu por séculos, inclusive a Reforma e Napoleão. Aristocratas e milionários, os DuMont possuíam investimentos em todos os lugares. Mas Felícia era especial: desaparecida por anos, ela retornou recentemente e se tornou foco da mídia e jornais do mundo inteiro.
- E, claro, ela é a ex do Vetor. Esse pessoal da Vanguarda é bastante famoso, não acha?
Chris ignorou o comentário de sua irmã e esperou o momento correto para conversar com a beldade. Em um momento, utilizando seus poderes precognitivos, Chris jogou um lenço de seda que fez com que um garçom caísse por cima dos homens que estavam conversando com Felícia. Ela nem ao menos piscou para o perigo, o que atraiu ainda mais a atenção de Chris.
Agindo como um cavalheiro, Chris se aproximou de Felícia. – Com licença, senhorita, você está bem?
O garçom fez cara de como se essa fosse sua fala, mas ignorou e continuou tentando convencer os outros de seu pequeno “erro”. – Americano. – disse Felícia em inglês britânico perfeito. – O que o traz aqui, caubói? – ela sorriu, bebendo um gole de seu champanhe.
- Bem, é meio embaraçoso, mas estou aqui servindo como “guarda-costas” de minha irmã. – Chris percebeu que dizer a verdade seria melhor. – Mas o serviço de proteção de uma supermodelo não é bem meu estilo.
Ela riu e percebeu a semelhança entre Chris e Kate. – Então… você é irmão da favorita americana? Pois acredite, ela é muito bonita.
- Você também. – ele disse. – Sinceramente achei que estaria aqui representando as francesas, mas liderando seria melhor.
- Oh, charmoso e educado. – ela se recostou numa cadeira, sentando. – Creio que minha vinda ao evento não tenha sido de total perda.
Duas horas depois
“Todos eles vão pagar”.
O Caçador sentiu um frio na espinha. Essa sensação de perigo o forçou a ativar todos os seus sentidos, procurando o inimigo. Mas ele era incapaz de encontrá-lo. “Como?”, pensou, “Ninguém consegue se esconder de meus sentidos!”
Como reflexo, o Caçador pulou e caiu ao chão segurando Felícia DuMont. Centésimos de segundo depois, uma rajada de metralhadora romperia o clima calmo do evento. Vários homens e mulheres procuravam cobertura, enquanto um soldado era fuzilado sem que ninguém pudesse fazer nada.
“Kate!”, pensou imediatamente o Caçador. Detectando a mente de sua irmã entre as centenas do local era fácil, afinal eles tinham crescido juntos. Ela estava no banheiro, segura, retocando a maquiagem até que as balas começaram a voar.
O atacante, rapidamente, puxou uma pessoa específica do local e levou como refém, atirando nos guardas do evento com grande habilidade. O homem tinha estatura alta e falava em francês, para desagrado do Caçador. Entretanto, ele conseguiu discernir as intenções, principalmente aquelas de que sequestro.
Quando o homem partiu, Chris ajudou Felícia a se levantar. A confusão tinha deixado suas vítimas: quatro guardas mortos, dois feridos levemente, mas nenhuma vítima entre os outros convidados. Sentindo que isso não tinha acabado, Chris sabia o que tinha que fazer.
- Eu tenho algo a fazer!
Chris se sentiu surpreso: os dois, Felícia e ele, tinham falado a mesma frase ao mesmo tempo. Por um momento ele pensou que aquilo era apenas coincidência, então ele lembrou do sonho. Ele tinha que manter Felícia fora disso.
Quando Felícia estava para sair, Chris se aproximou furtivamente dela. Com um golpe rápido, ele a imobilizou e cortou seu suprimento de ar. Em alguns segundos, Felícia estava caída ao chão como uma vítima que desmaiou ao ataque. O golpe foi perfeito e ela não notaria que foi Chris quem o aplicou.
Correndo para o carro, Chris abriu o porta-malas onde estava uma maleta com chave biométrica. “Vanessa, eu te amo!”, pensou ao fazer os testes biométricos. O novo traje do Caçador era mais leve e portátil, podendo ser levado em quase qualquer contêiner. E o sistema de segurança impedia que certas pessoas curiosas – Kate Collins – bisbilhotassem. Mal de família.
Não demorou muito para rastrear o homem que atirou. Ele tinha corrido para a estação de trem do Louvre, atirando para todos os lados, mas não ferindo ninguém. As autoridades estavam perplexas, pois ele parecia destemido. Mas o Caçador sabia que algo estava errado. Por alguma razão, o homem não era maligno, ou tinha intenções para matar. Os sentidos do Caçador estavam entrando em conflito: ele sentia que o homem era uma ameaça, mas não a ameaça em si. O que estava acontecendo?
Tudo isso mudou quando ele carregou o homem desmaiado no ombro por toda Paris até a região das galerias aquáticas. A polícia parisiense perdeu seu rastro: ele se deslocava mais rápido que um carro e conhecia bem a cidade. Mas ele não era capaz de escapar do Caçador, que estava sempre descobrindo seu próximo passo.
Foi quando o agressor entrou em um armazém abandonado que tudo fez sentido: então era de lá que vinha sua visão! Mas tudo estava bem, porque Felícia estava segura e só havia um sequestrado.
Uma presença se aproximava pelas costas do Caçador. Com rapidez, ele puxou sua pistola e apontou para o local. Lá estava ela, de pé, firme e com uma pistola de tiro único apontada contra ele. Felícia DuMont.
- Mas como? – o Caçador não conseguiu deixar escapar.
- Como eu cheguei aqui? Eu sinto o cheiro do sobrenatural a quilômetros. Como eu estou acordada? Eu posso me fingir de morta tão facilmente quanto uma atriz de teatro. Como eu sei o que está acontecendo? Porque estou na trilha deste monstro a semanas. Esta criatura toma o controle de corpos humanos vulneráveis e os assassina. A razão eu não sei, mas isso acaba hoje. E ou você sai do meu caminho ou me encara agora, Shadow Hunter!
O Caçador estava num misto de surpreso e alegre. Surpreso pelas capacidades paranormais de Felícia, que ele esqueceu de perceber no momento em que conversava com ela, mas alegre porque ela estava do seu lado. Ele logo baixou a arma, mostrando que estava do lado dela.
- E então. – ele falou, tentando disfarçar a voz. – É bom me repassar um pouco do francês aqui. Estou enferrujad
Ela baixou a arma e demonstrou uma personalidade completamente diferente da Felícia DuMont da festa: fria, séria, completamente desprovida de gracejos ou distrações, completamente focada no objetivo. Agachando-se ao lado do Caçador, ela mirava com sua pistola exótica em direção do armazém.
O Caçador percebeu que a pistola era mística e que permitia que ela visse através das paredes, observando o ambiente. Sete pessoas estavam lá, presas, inclusive o agressor, comprovando a teoria de Felícia.
- Então, o que faremos agora? – perguntou o Caçador. – Você é a especialista em criaturas sobrenaturais, certo?
Ela olhou de lado para o Caçador e, após alguns segundos, respondeu. – Você pega a entrada dos fundos. Eu vou pela frente.
- Normalmente eu pego a entrada dos fundos… mas não seria melhor que eu trabalhasse na da frente hoje?
Ela se levantou. – Suas armas não podem feri-lo, Caçador. Todos os sentidos terrenos são nublados pelas habilidades dele. Ele se move pelas sombras como ninguém. Um fantasma. Enquanto eu o distraio, você resgata as pessoas.
- Certo… espera, você o distrai? Não vai destruir essa coisa?
Com um olhar cortante ela retira o sorriso por debaixo da máscara do Caçador. – Eu não sei se posso derrotá-lo.
Armazém abandonado, 23:35
- Todos vocês! – gritava a voz das sombras para as pessoas aterrorizadas em suas cadeiras. – Todos vocês vão pagar pelo que fizeram! Vão sofrer e muito mais de vocês vão ser destruídos!
- Não se eu puder impedir, criatura!
Felícia, sem rodeios, entrou disparando com sua pistola mística ao teto. Um flash cegante revelou uma criatura humanoide escondida nas sombras, mas composta por elas. Entretanto, quando a luz se apagou, a criatura pode ser ouvida espalhando sua essência por todo local.
- Vejam só? Heróis!
O Caçador estava se aproximando das vítimas para libertá-las quando caiu a ficha: “Ele falou heróis?”
Em um movimento só, todos os sentidos do Caçador o alertaram ao mesmo tempo, mas tarde demais. Um golpe profundo perfurou o ombro do Caçador e ele sentiu um veneno terrível invadindo seu corpo. Aos poucos perdendo as forças, ele viu Felícia tentando derrotar a criatura. Entretanto, um segundo vilão apareceria nas costas dela e a derrubaria de surpresa.
Uma hora depois
O sonho se realizava. Pelo que o Caçador podia entender, a criatura tinha capturado vidas demais. Ele pouparia a vida do Caçador e de uma pessoa que ele escolhesse. Mas essa decisão não podia ser feita, o Caçador não podia escolher a vida de uma entre outras pessoas.
Enquanto pensava num jeito de escapar, ele percebia que as pessoas estavam totalmente aterrorizadas. Elas não conseguiam pensar direito. O Caçador nem ao menos conseguia sentir a criatura sobrenatural que nublava seus sentidos. Pela primeira vez, o Caçador estava encurralado, sem alternativas.
Mas sim, havia uma, apesar dele não gostar dela.
- O que eles lhe prometeram, fantasma? – disse o Caçador. – Ressurreição? Glória? Dinheiro? Pra que diabos você quer isso? Você morreu!
O Caçador sentiu seu ombro ser perfurado um pouco mais e gemeu da dor. – Vingança seria o termo correto! – disse a criatura das trevas. – Todos eles são culpados, mas vocês não! Por isso eu estou te dando a chance de se salvar e sua companheira… ou qualquer outro que esteja interessado.
O Caçador deu mais uma olhada para ter certeza que Kate não estava entre os capturados. Felícia estava amordaçada, incapaz de falar com ele. Então o Caçador tinha que usar a cabeça para enfrentar um inimigo que não podia enxergar e lutar.
- Pois bem… – disse o Caçador. – Pode matar todos! Eu não me importo com nenhum deles!
Essa resposta foi bastante surpreendente, até mesmo para a fria Felícia DuMont. Uma aposta arriscada, o Caçador viu que seu plano podia fracassar totalmente. Mas ele apostou corretamente e teve seu prêmio.
- Não! – gritou de raiva a criatura das trevas, retorcendo sua garra maligna e causando mais dor no Caçador. – Você tem que escolher! Apenas oito ele disse, eu não posso dez! Oito é o número, oito daqueles que me maltrataram, que eu odiava em minha vida! Você não pode me forçar a dez! Por favor… – agora a criatura já implorava. – escolha um!
Uma criatura metálica surgia das trevas. O Caçador já tinha percebido o segundo paranormal há algum tempo. – Fantasma. Não temos mais tempo, termine o que começou. – disse o homem por detrás das sombras.
- Não! – gritou as criatura das trevas. – Eu não posso! Apenas oito! Oito!
Agora o homem já aparecia completamente na pequena luz no centro do armazém. Ele tinha pelo menos dois metros de altura e era extremamente forte. Seu rosto estava coberto por uma máscara e estranhamente o Caçador não conseguia ver por debaixo dela.
- Oito, então. – disse o homem, se aproximando de uma das vítimas com um enorme facão nas mãos. – Vamos reduzir sua parte!
- Eu não faria isso! – gritou o Caçador.
- E porque não? – retrucou o paranormal, com o facão no pescoço de uma das vítimas.
- Por que… por que… – o Caçador foi interrompido com um raio que rompeu os céus e atacou o paranormal, jogando-o longe da vítima.
- Porque ele chamou reforço, bundão!
Uma mulher flutuava descendo do buraco causado pelo raio. A iluminação causada foi suficiente para que a criatura removesse suas garras de Felícia e do Caçador, facilitando sua fuga. Ela era Raindance da Vanguarda, que o Caçador tinha chamado o reforço há alguns minutos.
- Um obrigado ajuda, Caçador! – gritou Raindance, com eletricidade faiscando de seus olhos e mãos.
- Tanto faz. – disse o Caçador, orgulhoso. – Eu teria descoberto um jeito de qualquer forma.
- Arram. – disse Raindance, em tom sarcástico. – Isso antes ou depois de ser devorado por uma criatura das trevas?
- Menos conversa! – disse Felícia. – Eu e o Caçador vamos atrás do Fantasma! Você Raindance derrota o outro!
- E quem seria ela? – perguntou Raindance.
- Longa história! – falou o Caçador, pulando atrás do Fantasma.
Entrando mais profundamente nas galerias aquáticas parisienses, a escuridão cercava mais uma vez os dois.
- Nós teremos apenas uma chance antes que ele ataque novamente. Você não deve errar de maneira alguma, Caçador.
- Não se preocupe. – disse ele, preparando a pistola. – Dessa vez ele não escapa.
Se aproximando de uma convergência de túneis, Felícia sentiu a presença da criatura e alertou o Caçador. Com um movimento rápido, ela iluminou todo o ambiente e antes que o Fantasma pudesse atacar, o Caçador disparou seus dardos tranquilizantes nele. Caído ao chão, o Fantasma estava capturado.
Mas logo o Caçador ficou abismado. O Fantasma estava morto!
- Mas como? Eu usei munição tranquilizante!
Felícia tocou no ombro do Caçador que estava com um peso na consciência. Teria ele matado acidentalmente alguém?
- Não se preocupe, Caçador. Ele está morto de qualquer forma… apenas as sombras o mantinham como um Fantasma.
Aliviado, o Caçador e Felícia retornaram até o armazém, que estava em chamas.
- Mas que diabos! Eu deixo um minuto o local e ele já tá pegando fogo!
Uma nuvem de chuva se formou sobre o armazém e logo apagou o incêndio. Obra de Raindance certamente.
- O maldito é esperto. Ele tinha tudo planejado, fugiu do local e desapareceu. Não consegui encontrá-lo, estive ocupada apagando o incêndio.
- Certo. – riu o Caçador. – Conte essa história pra si mesma quando for dormir, tudo para lhe convencer que não errou.
Raindance claramente ficou irritada, mas após libertar os reféns, ela perguntou: – E onde está seu prisioneiro?
O Caçador estava trazendo Fantasma no ombro, mas quando percebeu ele tinha desaparecido. Aparentemente o Fantasma era invisível a todos os sentidos, inclusive o tato.
- Conte essa história para si mesmo antes de dormir, ‘Batman’. – disse Raindance, criando um tufão para levar os reféns. – Você…
O Caçador e Felícia tinham desaparecido repentinamente.
- Amostrado. – concluiu Raindance.
Hotel Bortón, 17/01/2012, 09:56
- Pronto para partir, monsieur Collins?
Chris sabia que ela tinha vindo, mas queria ver com os próprios olhos. Felícia DuMont, encostada em sua porta, olhando para Chris enquanto era expulso de seu quarto por sua irmã.
- Bem… – disse Kate. – Você pode pegar o voo das cinco, é claro!
Após Kate sair, Felícia entrou no quarto e sentou na cama. – A que honra devo a visita, mademoiselle?
Felícia riu. – Seu francês é horrível! Mas eu nunca tive a oportunidade de agradecê-lo por ontem. Seu pensamento rápido salvou minha vida, monsieur Collins.
Chris sentou ao lado dela. – Chris, por favor.
- Então… Chris. – disse ela, se aproximando dele. – Já vai, tão cedo?
- Bem. – ele também se aproximou da francesa. – Tenho certos, afazeres nos Estados Unidos. Quem sabe você não me visite uma vez ou outra?
- Talvez.
E com isso, os dois se beijaram, sentados a cama. Após alguns momentos, Felícia se levantou e, olhando para trás, sorriu para Chris.
- Bem, eu posso visitá-lo de vez em quando… Shadow Hunter.
Chris ficou ali, parado, sem esboçar reação. Já era a terceira vez que era surpreendido nesta viagem para a Europa, mas desta vez foi de forma agradável. Como ela descobriu não importava. Mas que Felícia DuMont estava em sua mente agora, era a verdade.
“Droga, porque é que eu tenho que voltar para Nova York!”.
Louvre, 17/01/2012, 17:11
Um homem alto de compleição forte, mas de rosto envelhecido, esperava olhando a Mona Lisa no salão do Louvre.
- Então, é assim que começa.
- Senhor? – disse um segundo homem ao lado, que mostrou ser o mesmo do armazém. – Falou algo?
- Nada. – disse o homem velho, respirando profundamente após apreciar a obra.
- Bem. – disse o homem do armazém. – Nós mostramos que eles são vulneráveis, não?
- Sim. – disse o homem. – Ele conheceu a dor.
- Ele acha que conhece a dor? – falou o segundo homem, removendo um rosto falso e mostrando pele arrancada por debaixo. – Eu mostrarei o que é dor!